o primeiro dia na escola – 6/12/10

13 12 2010

Hoje acompanhei uma visita na escola, onde realizamos o primeiro dia da semana cultural do Ariri, com o objetivo de evidenciar a cultura caiçara na identidade das crianças. As atividades dos alunos mais velhos (6a e 7a série), o Bruno discutiu a modernidade e a vida “tradicional” e os alunos mais novos (5a série) fizeram um teatrinho (meninos) e um trabalho com fantoches (meninas) baseado num texto sobre ecologia, acompanhados pela Camila.

As atividades foram relativamente produtivas. a aula do bruno foi muito interessante, com a apresentação do filme “tempos modernos” do charles chaplin, sendo que parte da classe se mostrou muito interessada, e parte extremamente apática. Já na aula da Camila, os meninos estava muito agitados, enquanto as meninas se mostraram muito mais dispostas a realizar o plano proposto.

O que importa é q a gente plantou a sementinha. Vamos ver como ela vai se desenvolver!

Bully

A primeira coisa q me chamou a atenção foi uma grande atenção ao bully, com diversos cartazes distribuidos na escola, visando incentivar a denúncia de tais práticas. em conversas informais com diversos funcionários e professores, me relataram que existe sim esta prática no colégio, mas em um grau de violência médio ou moderado, sendo que mesmo as crianças mais vitimadas conseguem se integrar aos grupos.

Este é um problema muito importante numa comunidade como esta por que não existe um outro local para que este aluno possa ser transferido, já que lá já abriga alunos da ilha do cardoso e a escola mais próxima implica em viagens de barco.
A hierarquia não é rígida, mas respeita basicamente a idéia de que o carisma e a liberdade para fazer o que se quer gera lideranças mais fortes, nisto entra muito claramente o papel dos pais.

Ou seja: o Ariri é apenas uma fatia do cosmo que um professor paulistano vive, sem alguns extremos, que podem aparecer, mas não são comuns, assim como em SP, são exceções.

O que choca e é, de certa forma, extremamente engraçado e irônico, é o fato do bully muitas vezes começar levando em conta a moradia. Alguns alunos que moram em sítios são discriminados por viverem lá, enquanto parte dos alunos se julga extremamente integrado, moderno e diferente por morar na vila!

Outro ponto interessante é que num determinado momento, os alunos da quinta série começaram a brincar de “polícia subindo o morro do alemão”! Completamente BIZARRO!

problemas visíveis

O maior problema que encontrei foi atingir os alunos. A discrepância de idade, cultura e linguagem é muito grande. Neste momento que percebi o vão que nos separa. Somos aliens. Nossa linguagem tem grandes diferenças, a utilização de algumas palavras específicas, o uso de tons de voz, o sotaque, a linguagem corporal, o próprio visual são apenas algumas das pequenas diferenças que nos separam, que nos evidenciam como estrangeiros.

Nisso eu me lembro do livro “o estrangeiro”, de camus. Não pretendo matar ninguem, ou q eu seja um bundão, como o personagem central, mas me sinto um estrangeiro, apesar de estar no meu estado, no meu país.
espaço veterinário

Quanto ao periquito que está “internado” com a gente, ela fugiu da gaiola, ficou dando voltas pela casa e encontramos a falange distal (a ponta do dedo) caída num dos comodos. Estavamos nos preocupando com anestesia e um monte de coisa e so precisava de um piquezinho…

Vamos encaminha-la para um DEPAVE onde ela será tratada da forma mais adequada. Desejem sorte para ela!





mariscos e rabecas – 10/12/10

13 12 2010

hoje foi um dos dias mais interessantes, por dois motivos: por que participei como ouvinte de um curso da eco associação sobre maricultura, a criação de animais marinhos, que abordou especialmente o cultivo da ostra, depois, e principalmente, por que fui convidado para ouvir o seu zé pereira, senhor randolfo e seu arnaldo tocando um pouco.

E assim fomos eu e bruno em direção a casa do seu arnaldo, a um quilometro de onde se situa a sede do IPE de Ariri. Pedimos licença, entramos na propriedade e na casa de madeira, construida elevada a uns 50 centimentros do chão. Dois degraus para atingir o chão da casa propriamente dita. Feita inteiramente de madeira, um misto de diversas qualidades, da tradicional canela até o pinho.

A casa se localizava alguns metros para o fundo do terreno, e para se aproximar da estrada, o seu arnaldo e um mutirão de amigos a destruiram e reconstruiram mais a frente, assim ele, que já é um senhor, tem mais facilidade em ver quem se aproxima e se comunicar com seus visitantes, qdo o chamam no portão.

Depois de um pouco de conversa “de homem” (que significa que ficamos falando sobre um monte de assunto técnico q entedia a maioria das mulheres, tipo detalhes mínimos sobre a produção dos instrumentos e do som de cada madeira), eles iniciaram um ensaio, zé na rabeca, seu arnaldo na viola, bruno no cavaco, eu e seu randolfo na torcida, já que não tenho a mínima competencia e seu randolfo não está bem de saúde.

O fato da casa ser de madeira da uma sonoridade toda especial, especifica e diferenciada, cujo som interage de forma única lá dentro. Os instrumentos por si so já possuem uma excelente qualidade e um som com um timbre todo particular. Eles inseridos num contexto diferenciado, tanto psicológico quanto realmente físico, com aquela grande quantidade de madeira que absorve algumas ondas e vibra junto com outras, gera uma sonoridade dificilmente reproduzivel.

Entre as musicas, falamos sobre diversos assuntos, desde a raiz do sertanejo até a vontade de deixar o legado, a técnica de tocar rabeca, com alguem, já que é um instrumento de dificil lida e que poucos ainda dominam, ainda mais cantando junto, como faz o zé pereira.

Vale dizer que a rabeca é um precursos do violino, que é uma rabeca padronizada, com afinação e técnica mais rígidamente estabelecidas. Eu não peguei um afinador para constatar, mas acredito que haja uma variação razoável na afinação que eles utilizam, afinam os instrumentos todos juntos para não mudarem o tom, bem como pensando na forma que vão cantar, para que não dificulte o processo.

Eles mesmo chegaram com a idéia de gravar algumas sessões deles tocando, evolui o pensamento para um video com eles intercalando causos e musicas. Vamos ver o q sai deste mato!

Foram 40 minutos que eu ainda não consegui digerir adequadamente. Talvez escreva mais sobre esta experiência em um outro momento.

o curso de maricultura

Meu dia inteiro foi dedicado a um curso sobre a criação de ostras, um basicão para que as pessoas aqui de Ariri tenham a possibilidade de utilizar este cultivo como uma opção de renda. Uma equipe da ONG Eco Associação, parceiro de diversas entidades incluisve governamentais, veio para sondar e plantar a sementinha.

Eles discorreram sobre a situação dos rios que banham a região, muitos que passam por diversas áreas degradadas, mostrando que onde a mata foi retirada sem critério, ocorreu escorregamentos de terras bem como mudança na coloração da água, com posterior deposito de material nas curvas de rio, gerando tambem enchentes em diversas cidades.
Depois, eles discorreram sobre a biologia dos animais de interesse na maricultura, dos gastropodes, cefalopodes, camarões, siris, até os peixes.

Finalizaram com uma grande explanação sobre os métodos de criaçõa dessas espécies, com enfase nos mariscos, vieiras e na ostra.

O que as tres tem em comum é o fato de necessitarem de sementes. Deve-se colher a filhotada, as larvas, assim que elas se fixam, seja por meio de placas de PVC depositadas em determinadas áreas e profundidade (pra não ficar criando craca, sem querer) no caso das ostras, por exemplo. As sementes são colocadas no ambiente adequado e deixadas para crescer.
O criador deve manejar para que animais do mesmo tamanho se mantenham juntos sempre, retirando animais menores para que não sofram com a concorrencia por alimeno, se tornando refugo.

Os mariscos são criados em grandes cordas desfiadas, mantidas no mar com a ajuda de boias, que são ancoradas e mantidas por alguns meses.

Tanto as vieiras quanto as ostras são criadas em “gavetas” ou “lanternas” com 5 ou 10 andares, que podem ser afundadas ou elevadas até a profundidade desejada, da forma como for mais conveniente, pensando em crescimento, temperatura, salinidade, entre outros fatores. Só devemos lembrar que as vieiras são de água salgada, exclusivamente, bem como as ostras do pacificio. a ostra brasileira é de águas salobras.

A mensagem q achei primordial é: nunca invista numa coisa só. Se tudo estiver no peixe, se eles morrem vc fica sem sustento. Se vc tem uma criação de peixes, marisco, horta e trabalha qdo pode, sua subexistencia é mais tranquila. espero q esta mensagem seja passada pra frente.





o dia da natureza – 9/12/10

13 12 2010

o momento de finalizar temporariamente os trabalhos como documentador da semana cultural foi um dos mais interessantes, ainda mais com a descontração entre funcionários do colégio e dos alunos, que realizaram atividades da semana cultural durante a manhã e receberam os premios durante a tarde.

a primeira palestra do dia foi do senhor Abrahão e do senhor Valdomiro, dois grandes conhecedores do fandango e das tradições locais. O primeiro é conhecido destas minhas narrativas, falei dele na visita a casa da farinha, no dia 6. Já o seu Valdomiro é uma figura que mora um tanto afastado da cidade, onde cria algumas cabeças de gado. O tema escolhido foi a água e sua importância para o equilíbrio do ambiente.

O primeiro sinal de desmatamento em diversas regiões é exatamente a diminuição de fluxo de água em diversas regiões, bem como a mudança na cor desta agua. Um segundo fator é a diminuição da umidade do ambiente. Num local como o Ariri, onde chove constantemente, e se concentra uma área de mata Atlântica muito importante, as condições de tempo se mantem. Já em áreas desmatadas, ou até mesmo em pastos, é muito complicado se manter tanto temperatura quanto umidade, adequados, equilibrados, constantes ou dentro de margens previsíveis.

E ao mesmo tempo, o ciclo da maré/lua afetam a umidade, as chuvas e, portanto, a umidade interna das arvores. Desta forma, com um pouco de observação, podemos descobrir quando se consegue a melhor madeira, dispensando um tempo excessivo de secagem, evitando que a madeira rache por pouca coisa.

E isto não fui eu q falei, foi a experiencia de dois senhores citados que nos contou. Eles me fizeram pensar no bando q nega a existencia do aquecimento global (sim. sei q não é apenas aquecimento, mas n discuto isto profundamente aqui), dizem q o ser humano influencia o clima nas cidades, onde nós vivemos e modificamos. E sobrarem 7% da mata atlantica não é modificação o suficiente? Afinal, a capacidade de retenção de água de uma mata atlantica é necessariamente diferente da de um pasto, de um cerrado, de uma amazônia e etc.

os fandangueiros

Para acabar a manhã, tive a oportunidade de filmar uma conversa com os fandangueiros zé pereira e seu arnaldo, que já tocam juntos a muito tempo. Por causa da presença de cameras, eles ficaram um tanto receosos e timídos, falaram um tanto que pouco e sobre diversos temas, em especial sobre a forma de fabricação dos instrumentos, com a caixeta, madeira aqui da área, e sobre a importancia da musica para eles.

A experiencia mais clara aconteceu qdo eles começaram a tocar. Seu Arnaldo, antes receoso e em silêncio, abriu lentamente um sorriso de acordo com os acordes iam sendo formados, e na segunda musica a satisfação era visível.
Um momento de poucas palavras, nem vendo o vídeo da pra entender o que se passa, apesar da idéia. Então… esperem e verão.

contos de palmiteiros

Durante a espera para o anuncio do tão aguardado premio de melhores trabalhos da segunda semana cultural, fiquei conversando com alguns dos idosos locais que contaram muito sobre o ciclo do palmito, que praticamente está acabado pelo extrativismo descontrolado.

Atualmente é consenso que o palmito jussara está acabando. Os relatos afirmam que poucas palmeiras estão de pé nas áreas do parque do lagamar, e apenas em locais afastados. A imensa maioria está em propriedades particulares, cujos proprietários plantam por gosto pela criação ou pela consciencia de manter a espécie viva.

Todos com quem eu conversei tem noção de que esta tambem é uma reserva economica importante e caso eles precisem de dinheiro, retiram aquele investimento e o vendem. E tambem tem a consciencia da dificuldade e da paciencia necessária para que um palmito seja lucrativo, então apenas utilizam este recurso em ultima instancia. Vi diversas propriedades muito bem servidas dessas palmeiras.

Porem nem sempre foi assim, inicialmente era uma arvore extremamente comum, especialmente até 1950, quando se começou o extrativismo em massa. Nesta época era normal ver barcos e canoas carregados de palmito percorrendo os rios.

Cada feixe provem do quarto próximo as folhas da palmeira. Numa árvore de tamanho razoável, pelo menos uns 6 ou 7 metros, corta-se 4 dedos do caule, logo abaixo da inserção das folhas, e descasca-se até que sobre apenas uma camada verde. Cortando mais que isso, o palmito desmancha e perde completamente seu valor comercial.

O palmiteiro recebia pelo número de vidros que conseguia encher com palmito. Vai se cortando até que ele chegue a determinado peso, os restos são juntados, o “picadinho” e enchem mais alguns vidros, com o mesmo valor financeiro, apesar de muitos palmiteiros nem saberem que está pratica era passível de recebimento.

Uma das opções é o uso do cacho e do fruto como alimento, o que gera um produto similar ao açai, que é bem cotado pelas pessoas, porêm o projeto não é dos mais interessantes já que não se encontra mais nenhum individuo adulto, com pelo memnos uns 6 ou 7 anos.

Para se ter uma idéia, para passar dos 2 metros, pode demorar até 5 anos (especialmente por causa das condições precárias de luz no meio da mata), sendo que com 8 anos, ela pode atingir 5 metros. Esta diferença significa um palmito de uns ‘ ou 2 centimetros de espessura, do tamanho de um lapis, para um palmito grande, com uns 50 centimetros de comprimento e 5cm de calibre.

Portanto, agora o palmiteiro não anda com todo um aparato pra carregar feixes de palmito de grande tamanho. Ele trabalha com uma sacolinha, corta o jussara de forma “ergonomica”. Não precisa se abaixar pra nada. Simplesmente corta-se as folhas e a área verde, onde está o palmito e o joga no bolso.

Agora, com o esgotamento da reserva de palmito, e graças a uma iniciativa do IPE, está se incentivando a comercialização do fruto, que é muito parecido com o açai.

E este ciclo acabou. Junto com a palmeira jussara.

curandeiros

Numa comunidade pequena e isolada, a medicina praticada pelos curandeiros é essencial. Nisto o uso de ervas medicinias e outras plantas aromáticas, que tanto está em voga entre as madames, era uma simples questão de sobrevivencia. Mas isso não significa que a industria farmaceutica não estava presente nestas áreas, muito pelo contrário.

Cada curandeiro tinha as suas preferencias e alguns realizavam procedimentos deveras complexos, como a aplicação de medicação via endovenosa. Este uso irrestrito e, muitas vezes, sem uma adequada prescrição e, especialmente, avaliação do paciente, era extremamente preocupante, tanto que a aparentemente esta pratica diminuiu drasticamente.

Porem ainda existe o uso da sabedoria popular, sem que se deixe de lado a tecnologia e as facilidades. Um exemplo claro foi um amigo que torceu o pé e deu aquela comparecida no pronto socorro para verificar se estava tudo certo. Como a distancia é pequena, ja realizou-se uma compressa de gelo, o que é muito interessate no caso da lesão de tendão.

No outro dia, o povo ficou sabendo do acidente e ja trouxe uma erva de santa maria para ser enrolada no pé do camarada com uma compressa, que aceitou e agradeceu prontamente.já no final do dia notamos significativa melhora, já não me perguntem se foi a erva ou o anti inflamatório.

acidentes ofidicos

Um dos problemas que mais preocupa esta região, especialmente esse pessoal que mora em sitios, é a presença de cobras venenosas por toda região. E eu extendo essa preocupação para as cobras não venenosas, por que elas pagam o pato brutalmente. Aqui tem muita caninana, cobra cipó, dormideiras e outras espécies sem veneno, que são mortas tambem por que ninguem tem ideia da importancia, so do perigo que algumas oferecem.

São muitos os relatos dos acidentes, todos com nome e sobrenome da vitima bem como uma descrição bem detalhada da morte de cada um.

Sempre deve-se lembrar que o hospital com condições para atendimento de casos deste tipo, está em cananéia, que é a 1 hora de distancia em uma lancha “voadeira” ou umas 3 horas no caso de um barco “normal”.
baladinha

Junto com o final da semana cultural chegou um pessoal para pernoitar na escola da cidade. E foi muito legal, por que finalmente rolou uma festinha nos bares do pier. O engraçado é q os “locais” foram dormir muito cedo! So restou meia duzia, constrastando com a reclamação de que não há lazer por lá.





o dia das mulheres – 08/12/10

13 12 2010

as mulheres tem uma importância singular em todas as sociedades, mesmo as patriarcais, e aqui no ariri não é diferente. o proprio bruno ressaltou isto, logo após a aula dele uns dias atras, quando algumas meninas desincentivavam um menino a participar de uma discussão. Por isso, mesmo não estando muito combinado, resolvemos mexer uns palitinhos e colocar 4 ou 5 mulheres da velha guarda aririana para comentarem sobre os velhos tempos.

As mulheres faziam parte tanto do mutirão, quanto de uma parte menos comentada, que é a produção de alimentos para os trabalhadores na preparação para o mutirão. Assim como chamavam os amigos e parentes pro mutirão, chamavam tambem para ajudar na produção de café, broas de fubá e outros quitutes que eram parte integrante dos eventos.

Para o fandango, alem de tudo, ainda rolavam as gemadas. Era ovo batido com pinga, ou outras alcoolicas (lembram-se do Caracu com ovo, tradicional dos botecos paulistanos?) e rolava a vontade durante os fandangos. A dona Josefa controu que em uma ocasião ela inventou de tomar o “grosso” do caldo da gemada, depois q deu aquela concentrada e talvez uma decantada, e aquele foi um dos maiores “porres” q ela tomou na vida dela, não conseguiu nem trabalhar no outro dia!
A moda de viola é parte integrante da cultura caiçara, que é intimamente ligada ao modo de vida caipira, diga-se de passagem, e a dona Izildinha é uma das grandes conhecedoras deste assunto nesta região.

Como o evento inteiro foi filmado, não vou escrever mais, por que as imagens e o audio falarão por si só, quando eu liberar os vídeos. E pena q ela não cantou mais.

Observações sobre os trabalhos

Ultimamente os relatos tem ficado breves, mas não é pela falta de riqueza. Estamos trabalhando muito pesado especialmente na logistica com os palestrantes, o que simplesmente não deixa tempo para conversar mais profundamente com os habitantes.

A camila ta mais ferrada ainda, pois acorda mais cedo do que eu, pra levar os assistentes de campo que ela supervisiona, do programa para conservação do mico-leão-da-cara-preta, o Leontopithecus caissara.

Mas mesmo com os trabalhos, ainda conseguimos tempo pra parar alguns minutos e registrar imagens como esta.

[modo de piada nerd: on] Vale ressaltar que acabo de fazer uma descoberta bombástica quanto aos parasitas: eles são, na verdade, predadores muito ambiciosos, como um rato que quer predar um elefante. So que eles são espertos e percebem que não rola, depois de um tempo tentando. [modo de piada nerd: off]

nisto, ocorre um revezamento de pragas: num dia rolam mutucas, no outro “porvrinha” (so na noite de lua cheia), pernilongos e por ai vai. Agradeço o inventor da prometazina já que minha sola do pé foi atacada duramente pelos borrachudos.

E estou muito feliz por não utilizar meu celular a uma semana!





a casa de farinha – 07/12/10

13 12 2010

(Acordar cedo é uma MERDA.)

Logo de manhã, as 7 estavamos no colégio acompanhando o terceiro, o primeiro e a oitava série (não me venham com história de ensino fundamental e bla bla bla. não sei e não vou conseguir aprender esta nova divisão. sim. sou limitado!) a uma visita na casa de farinha que fica na propriedade do seu Abrahão, cercada de palmitos juçara.

O próprio senhor Abrahão, no alto dos seus 70 e muitos anos, junto com a dona Maria Rosa nos acompanharam e relataram todo o processo, bem como suas impressões sobre o local, em especial o amor pela área e sua vontade de permanecer ali até o final da vida, bem como os problemas que levaram ao fim da vida como sitiante, em especial a questão da proteção ambiental, que dificultou sobremaneira a realização das roças.

O processo se inicia descascando a mandioca, ai se coloca ela num ralador. Atualmente eles utilizam uma maquina motorizada e elétrica, mas antigamente era uma roda girada a mão, com cerca de um metro de diametro, com um “pneu” de lixa, que pega a velocidade lentamente e a mantem por um bom tempo. Mesmo assim o processo manual é extremamente cansativo.

Com a massa pronta, ela é colocada num balaio todo perfurado, por onde vai sair a água durante a secagem. Este cesto possui um “capacete” de madeira onde se apoia uma alavanca, que é acionada. o capacete e a mandioca funcionam como o pivô, sendo então feita uma pressão muito grande, saindo o “grosso” da água, num líquido viscoso que é cozido, se
torna uma goma usada pra fazer diversos doces.

Com os “flocos” de mandioca mais secos, eles dispõem o material numa chapa metálica, uma espécie de frigideira com 1 metro de diametro, em cima de um forno a lenha, espalham o material e vão o revirando com uma pá até que se seque por completo, esfarelando e se tornando a farinha de mandioca.

A visão dos alunos sobre a vida no ariri e seu possível futuro

Conversando entre todos os presentes, foi levantado pelos alunos quanto as dificuldades de se manter no Ariri, pela distância, falta de opções de lazer, esportivas e especialmente emprego e ensino. Ao mesmo tempo, foi levantado que a educação num ambiente mais natural foi muito proveitosa e com mais rigidez que em muitos locais, chegando até mesmo a citar este fator como um dos determinantes da violência e do uso de drogas.

Não é possivel se aprofundar nos estudos, a faculdade mais próxima particular seria em Registro, sem contar que é difícil uma família manter o filho e pagar o ensino, mas ouvi alguns relatos de indivíduos nesta situação, ou parecida, como um que está trabalhando e estudando.

O trabalho manual não é valorizado. Os jovens buscam claramente uma opção por trabalhos mais intelectuais. A informática é altamente valorizada, alguns alunos entendem muito bem tanto de hardware quanto de software, o que é muito estranho na minha opinião, já que a região so tem uma lanhouse, com poucas máquinas e o acesso a internet é bem precário. Pra ter idéia, o acesso é via satélite e demorei pelo menos 10 minutos pra colocar UM post online. demora MUITO!





ocio na praia de marujá – 5/12/10

13 12 2010

hoje não fiz praticamente nada. ficamos na casa da ONG IPE durante boa parte do dia, só de tarde conseguimos sair, quando a chuva deu uma tregua.

vida de veterinário

No começo da tarde, algumas crianças trouxeram uma ave machucada para que nós tratassemos. alguma delas deve ter dado uma estilingada, se sentiram mal e nos trouxeram. é algum tipo de periquito de pequeno porte, não temos um guia para identificação decente. a asa esta com a articulação radio-carpo exposta (ou ulna… sei la… em cada espécie é de uma forma, esta é a tipica situação q um atlas de anatomia faz falta), sem perda de sangue, mas q está um tanto comprometida.

temos uma maletinha com diversos fármacos e material cirurgico que vamos utilizar para tentar remediar, mas não rola ficar induzindo na anestesia geral sem o mínimo de recursos, então pensei em utilizar um anestésico local, fazer uma infiltração e realizar a amputação do membro. as outras opções são a manutenção do membro e espera para cicatrização em segunda intenção ou deixa assim e vamos observando, por que ele está comendo muito bem, berrando, o que até nos impressiona, por que está doendo com certeza.

Porem, ele não realiza seus comportamentos de limpeza adequadamente, o que o deixa com um aspecto sujo. ele deve estar se sentindo incomodado com isso. mas o que importa é q está se alimentando, hj fornecemos lentilha, feijão, abobrinha, abacaxi e mais alguns outros pedaços de fruta, o que é inadequado, nos sabemos, mas é o q tem na dispensa.
para controle de dor apenas ministramos dipirona (mesmo por que so temos isso aqui. queria ter mais drogas a mão…) e vamos manter este controle. amanha iremos decidir o que faremos.

infelizmente acabo de ser informado que o posto de saude não tem anestesico local, senão iriamos pedir para o administrador uma gota para realizar a anestesia infiltrativa. amanhã vamos pensar direito em como devemos proceder.
merecido descanso

debaixo de uma levissima garoa, fomos pra praia de marujá, na ilha do cardoso, de barco, num caminho q demora cerca de 20 minutos. nos deixaram num lado com mangue e vegetação típica de restinga numa área elevada, que possui uma trilha de uns 200 ou 300 metros que nos leva até a praia.

apesar de ser localizada num local remoto, a praia de grande extensão, está tomada por lixo. Pelo que os locais relataram, boa parte do material é trazido pelo mar. Tinha ate uns materiais hospitalares, como frascos de soro.

E mesmo nesta sujeira, a natureza floresce. Numa primeira vista, na areia, viamos as maria farinhas indo de la para cá, defenendo seu território e se escondendo com a nossa aproximação. a quantidade de conchas era razoável, tanto vivas como mortas, caramujos parecidos com os melanoides eram comumente vistos na área mais rasa, junto com pequenos siris com bolinhas marrons, que se enterravam rapidamente, além de umas “baratinhas” do mar, com alguns poucos milimetros que mordiscavam nossos pés de tempos em tempos. Vimos tambem alguns baiacus na área de mangue.

E o mais espetacular da visita foi quando avistamos um cão. Do nada. Sozinho. Correndo e nadando na praia! São as maravilhas da natureza. Ou as cagadas do homem, depende da quantidade de neuronios observador.





a questão da caça – 4/12/10 parte 2

13 12 2010

Quando falamos dos tipos de caça, a pelo troféu e a pela alimentação, entramos num terreno muito estranho, escorregadio, e cheio de nuances que a maior parte dos teoricos utopicos e pessoas completamente desconectadas da situação brasileira falam e acertam em alvos diversos, sem sequer se aproximar de soluções pertinentes.

No caso da áfrica do sul, é comum que pessoas com alto poder aquisitivo realizem a caça esportiva e leve o troféu para casa. O que acontece, na verdade, é que colocam um caçador cabação, com uma arma num espaço cercado de pequeno tamanho, e o animal, que pode até mesmo ser um grande felino. Mal alimentado, diga-se de passagem.

Pela proximidade com os seres humanos em toda sua criação, o animal se aproxima em busca de alimento e é morto. Simples assim. E o cara sai contando que o leão estava pra atacar ele. Gente deslumbrada é fogo…

Este modelo não se encaixa no Brasil simplesmente por que não temos animais pra tanto. Da onde vai tirar uma onça pintada para um imbecil caçar?

No caso da caça por fome, não tenho muito o que acrescentar. São pessoas famintas e é completamente cretino eu criticá-las enquanto digito este texto no meu notebook, sentando e comendo bolacha de chocolate.

Mas a questão é q a caça esportiva as vezes não é como a praticada na áfrica do sul. Muitos praticam o que eu chamo de “caçada testosterona”, que é um modelo de caça claro aqui nesta área do Brasil. Com a desculpa do uso do animal como fonte de alimento, ou sem nenhuma desculpa, por que muita gente aqui não deve explicações para ninguem, eles saem para caçar exatamente pelo prazer da caça, de se entocar, aguardar, acuar a presa e abate-la.

Normalmente os caçadores saem em pequenos grupos, as vezes em duplas ou trios, vão até alguns pontos mais remotos da mata, via trilhas e picadas. Então eles entram no mato literalmente e montam um esconderijo. Existem alguns locais já tradicionais, onde já existem os pontos. Não me perguntem como são os pontos. Ja me arrisquei mto descobrindo tudo isto, sendo que estou aqui a apenas 3 dias.

Estas expedições podem durar alguns dias, normalmente apenas uma pernoite, em alguns casos nem isso, especialmente na caça de aves. Neste período fora de casa se alimentam de caça, palmito, frutos nativos, ou ainda algum fruto de pesca.

Outro fator interessante é q cães são utilizados como farejadores e acuam as presas. Eles não são treinados formalmente, são apenas levados ao mato em companhia do caçador, normalmente para trabalhos curtos, pelo menos inicialmente, e eles aprendem meio que na prática como atuar como cão de caça, sendo que muitas vezes eles capturam a presa sem necessitar de nenhum auxilio.

Mesmo com a propaganda negativa propagada de leste a oeste, a caça tem alguns estimuladores importantes: alguns turistas. Eles vem de São Paulo e querem palmito jussara e carne de caça, sendo que me foi relatado que a carne mais apreciada é a de paca, mas se consome tambem capivara, aves, lagartos, cateto, jacaré e tatu. um animal pode ser vendido por cerca de 60 reais.

Felizmente, pude constatar, até agora, que apenas uma parcela pequena da população ainda prática estas ações com frequência e sem necessidade.